Cuidado com a Mentira da Verdade!!!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Os números têm perna curta
Valor Econômico - 31/08/2001 - Caderno: Fim de Semana - pg 10


Malditas mentiras e estatísticas: Escritor americano derruba os mitos forjados por vistosos algarismos.

Quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a queda de 0,99% do PIB no segundo trimestre, há duas semanas, não imaginava a polêmica que acabava de criar. Os economistas mais mal-humorados reclamaram do número, que estaria exagerado graças à manipulação incorreta de dados do setor de telecomunicações pelos técnicos do IBGE. Outros, mais conformados, se lembraram apenas de uma antiga piada: "Estatística é assim mesmo. Tire um 's' e vira esta titica."


Felizmente, Sérgio Besserman, o presidente do IBGE, prefere os números às piadas e deve estar buscando a verdade por trás das estatísticas do PIB. O comediante da família Besserman, por sinal, é seu irmão mais novo, Cláudio. Ele mesmo, o Bussunda do "Casseta & Planeta". Ambos sabem que os números, conforme o mensageiro, podem fazer rir ("quantos portugueses são necessários para trocar uma lâmpada?") ou chorar ("o Brasil tem 50 milhões de miseráveis").
Na telinha da TV, ou nas planilhas do IBGE, todo cuidado é pouco com as combinações dos dez inocentes algarismos arábicos.


Dizem que os números não mentem. Mas eles são como as armas de fogo, que não matam. Quem aperta o gatilho são os homens. As estatísticas, assim como os economistas e os comediantes, podem ser boas ou ruins. Podem servir propósitos nobres ou vis. Podem ser honestas ou manipuladas. Ou, então, simplesmente distorcidas ao longo do tempo, como ocorre na brincadeira do telefone sem fio. "Deve-se tomar cuidado com elas", diz o escritor Joel Best, autor do livro "Damned Lies and Statistics" (Malditas Mentiras e Estatísticas, em tradução livre, University of California Press, 196 págs., US$ 19,95), publicado há quatro meses nos Estados Unidos.


Ninguém melhor do que um americano para desvendar o lado perigoso das estatísticas. Os Estados Unidos são obcecados por números e têm estatísticas para tudo. Todas as manhãs, o presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, aproveita o banho de banheira para ler milhares de levantamentos setoriais sobre o ritmo de atividade econômica. Lá, como aqui, a interpretação das estatísticas é fundamental para determinar a política de juros do banco central, que afeta o dia-a-dia das pessoas e das empresas.


O mundo é muito complicado e precisa de estatísticas para ser mais bem compreendido, defende Best, um bem-humorado professor de Sociologia e Justiça Criminal da Universidade de Delaware, na costa leste americana. "Mas deve-se pensar de forma crítica sobre os números, sejam eles quais forem", diz. Uma vez, Best ouviu a seguinte pérola de um aluno, numa defesa de tese: "Todos os anos, desde 1950, o número de crianças americanas mortas por arma de fogo dobrou." Desconfiado, checou a informação na fonte indicada, um artigo de jornal de 1995. A frase estava lá. Depois, Best fez as contas e concluiu. "Essa é a pior estatística social jamais produzida", contou ao Valor, por telefone.


Aos números. Suponha que em 1950 tenha havido uma morte infantil causada por um disparo de arma de fogo. Em 1951, o número dobrou para dois. Em 1952, para quatro, e assim por diante. Em 1965, teriam sido assassinadas 32.768 crianças, mais de três vezes o número total de homicídios em todo o país naquele ano, segundo o FBI. Mas números assim são como coelhos e em 1970 a cifra estaria em 1 milhão de pessoas. Em 1980, em 1 bilhão. Três anos depois, teriam sido mortas 8,6 bilhões de crianças, o dobro da população do planeta! Em 1995, ano da publicação do artigo, teriam desaparecido 35 trilhões de crianças - um número realmente astronômico.


A estatística havia sido distorcida, descobriu Best. Segundo o Fundo de Defesa da criança, autor do estudo original, o número de infantes mortos a tiros havia dobrado desde 1950. Ao reconstruir a sentença, um jornalista distraído deu novo sentido à pesquisa, que depois ganhou vida própria nos trabalhos escolares e nas campanhas contra o porte de armas. Números errados, ou simplesmente exagerados, podem atrapalhar em vez de ajudar na solução dos problemas sociais, diz Best. "Muitas vezes, os exemplos terríveis são os casos raros. Eles são mais gritantes, mas acabam levando a ações que não resolvem os problemas reais e mais comuns", observa.


Ele descreve no livro o fenômeno da "lavagem de números". Como acontece com as mentiras, a repetição de um número errado durante muito tempo o torna
verdade absoluta, inquestionável. A fonte desaparece, mas o estrago permanece. Nos anos 80, as famílias americanas perderam o sono com a estatística apavorante de que sumiam 2 milhões de crianças por ano. Na verdade, muitas apenas fugiam de casa, reaparecendo logo depois. "O medo e o pânico desnecessário são um problema, pois as pessoas podem começar a se preocupar com as coisas erradas. Se você está preocupado com as crianças desaparecidas, não está preocupado com outras coisas, como a pobreza", diz Best. "É mais difícil matar um império do que uma estatística ruim."


Isso ocorre porque a maioria das pessoas sofre de "innumeracy", o equivalente matemático do analfabetismo (em inglês, "illiteracy"). Incapazes de interpretar os números, os pobres mortais simplesmente absorvem as estatísticas como elas são apresentadas. Pelo senso comum, por trás das estatísticas sempre tem alguém que entende de números. É verdade, mas as intenções de quem produz os levantamentos são determinantes em suas conclusões. As estatísticas podem virar armas em disputas em torno de problemas e políticas sociais, afirma Best. Elas têm sempre dois objetivos, um deles geralmente oculto. O objetivo público é dar uma descrição acurada e verdadeira da sociedade. O outro é dar apoio a visões particulares de certos problemas.

Durante anos, o Instituto do Tabaco nos Estados Unidos produziu inúmeras estatísticas para desmentir as evidências científicas de que o cigarro faz mal à saúde. Acabou desmoralizado, mas ajudou a manter o lucro da indústria por muito tempo. Os ativistas antifumo também fazem das suas. Recentemente, um jornal publicou a seguinte estatística: um quinto dos fumantes morre todos os anos por conta de doenças relativas ao consumo de cigarros. "Se fosse assim, o problema do fumo estaria resolvido rapidamente", ironiza Best. Geralmente, os grupos de interesse são ótimos para questionar as estatísticas de seus oponentes, mas não têm o mesmo espírito crítico com os próprios números. A mídia, apressada e interessada em atrair o público, também contribui para aumentar a ignorância, divulgando sem verificar os números apresentados pelas indústrias e pelas ONGs.


O primeiro passo para detectar uma estatística ruim é desconfiar dos grandes números arredondados. Há 1 milhão de casos de abusos de velhos. Há 3 milhões de sem-teto nos Estados Unidos. Há 1 bilhão de pessoas no mundo vivendo com menos de US$ 1 por dia. "Um número grande e redondo é um indício de que alguém está chutando", diz Best. Mas não se deve apenas descartar essas estatísticas. Elas podem ser verdadeiras e refletir problemas sérios. O importante é olhar os números de maneira crítica.


A dica é fundamental não apenas na aplicação de políticas públicas, como o controle da violência ou das doenças, mas também para as decisões dos investidores e homens de negócios. Alguém se lembra das incríveis estatísticas sobre o potencial de internautas e dos resultados das empresas da Nova Economia? Os incautos perderam muito dinheiro acreditando em números irreais. Só duvidaram das estatísticas depois que estourou a bolha da tecnologia no mercado acionário. De ativistas a políticos, de industriais a corretores, todos os grupos de interesse sofrem do mesmo problema. "A tentação de fabricar números vistosos é muito grande", diz Best.


As estatísticas dos órgãos do governo também devem ser analisadas com cuidado. A maneira como são feitas as perguntas pode ajudar determinadas políticas que interessam ao governo, alerta o escritor. Nos Estados Unidos, os números oficiais tendem a ser menos distorcidos. Mas não estão imunes ao erro. No século XIX, a prostituição era considerada um grande problema. Em Nova York, dezenas de estatísticas eram produzidas para ajudar no combate ao "mal social". Em 1833, os reformistas publicaram um estudo contando "não menos que 10 mil prostitutas", o equivalente a 10% da população feminina da cidade na época. Em 1866, um bispo da igreja Metodista declarou que havia mais prostitutas do que metodistas em Nova York. Outras estimativas apontaram pelo menos 50 mil. Chamada a agir, a prefeitura começou a fazer o próprio levantamento. A Polícia de Nova York, responsável pelo combate à prática, contou apenas 1.223 prostitutas em 1872. Na época, as mulheres nova-iorquinas somavam meio milhão. No fundo, todos estavam mentido.

"Damned Lies and Statistics - Untangling Numbers from the Media, Politicians, and Activists". Joel Best, 199 págs., US$ 19,95. University of California Press.



É claro que um estatístico não é dono da verdade!!! Só que não é apenas o estatístico que divulga dados estatísticos... temos muitos profissionais que não possuem essa graduação, mas que exercem essa (des)função!!! Estatística vai além de calcular médias e percentuais e é ai que muitos se perdem em suas análises. Não estou aqui para achar culpados, mas para começar a exigir que estatísticas sejam realizadas por estatísticos e que seja cobrado, acima de tudo, ética e responsabilidade na divulgação de informações por esses profissionais!!!








O vídeo é só para vocês refletirem sobre as mentiras da verdade e também para não esquecerem que 2008 é ano de eleição e muitas, muitas estatísticas!!! Aos que desejarem fazer uma paródia a realidade brasileira a letra da música encontra-se no Blog do Patricio Langa - Olhar Sociológico.


Feliz 2008 para todos!!!

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